Introdução

voltar à página inicial

 

veja também o sumário, alguns trechosexercícios

 

 

Introdução

 

 

Estávamos em 2012, e a cidade de Brasília ainda não havia enfrentado sua primeira crise hídrica. Ainda assim, alguns cidadãos já se mobilizavam para alertar sobre este risco em virtude do avanço da especulação imobiliária que, em conluio com o governo do Distrito Federal, buscava aprovar um plano diretor que devastaria as áreas verdes no entorno da cidade.

 

Dentre essas áreas estava uma região que forma o horizonte verde ao norte da cidade, onde nascem onze rios que deságuam no Lago Paranoá. Marcos, Rafael e eu nos encontrávamos para pensar o que poderíamos fazer juntos para ajudar a proteger a região e preservar os recursos hídricos da cidade.

 

Rafael Poubel, depois de vários anos realizando um ativismo cultural em defesa do cerrado, havia se dado conta de que, sem influenciar o sistema político, não conseguiria levar adiante seu propósito. Seu primeiro passo foi ativar sua ampla rede de colaboradores para ajudar a eleger Joe Valle, um agricultor orgânico e ambientalista, para a Assembleia do Distrito Federal.

 

Já o Marcos Woortmann tinha uma vida política intensa desde a universidade, a serviço da cidade de Brasília, pela qual é apaixonado. Mas, cansado dos esquemas tradicionais da política, havia se desvinculado do partido de que, durante anos, havia sido militante. Marcos e eu havíamos nos conhecido anos antes, apagando um incêndio no cerrado próximo às nossas casas, que ficavam às margens do córrego do Urubu.

 

Rafael havia reunido nós três para pensarmos em como poderíamos aproveitar os recursos que o mandato de Joe Valle oferecia para ajudar a proteger a região. Marcos sugeria investirmos em alianças com representantes políticos e, em algum momento da conversa, disse: “Só existe uma lei na política: a de que não existem espaços vazios no poder”, ao que eu prontamente refutei: “Penso diferente: que os espaços vazios estão bem diante do nosso nariz, nós é que não os enxergamos, ou ainda não agimos para criá-los.”.

 

Marcos concordou, e seguimos sem nos preocuparmos tanto com a política de cartas marcadas dentro do governo. A solução que encontramos foi realizarmos uma parceria do mandato de Joe Valle com um pequeno grupo de moradores que sonhavam que a Serrinha do Paranoá poderia se tornar um modelo de desenvolvimento sustentável, e defendiam que o território fosse reconhecido como uma região com a identidade própria de “Serrinha do Paranoá”.

 

Desta parceria surgiu uma ação inédita: realizamos uma audiência pública na Assembleia Legislativa para visibilizar a Serrinha do Paranoá como um bem público para toda a cidade. Engajamos movimentos da sociedade civil, dos ambientalistas aos estudantes, dos catadores de lixo aos educadores, para que fossem escutados cidadãos locais, ambientalistas e ativistas. A audiência reuniu aproximadamente 500 cidadãos participantes, e foi a maior realizada até então no Distrito Federal.

 

A audiência não só conseguiu enunciar uma identidade para o território, como alertou a opinião pública sobre os prejuízos que poderiam ser causados para a cidade, dentre os quais o da escassez de água. Este fato criou um constrangimento para a especulação imobiliária e fortaleceu o grupo local, que se expandiu e continuou ativo na defesa de um modelo de ocupação sustentável para a Serrinha do Paranoá.

 

Marcos, Rafael e eu estabelecemos um vínculo de parceria e amizade, que se desdobrou em outras ações realizadas em conjunto. Atualmente, Marcos é responsável pela gestão pública de uma parte do território da Serrinha, onde coordena uma série de ações de inclusão social, produção de mudas e recuperação de nascentes. E Rafael tornou-se superintendente do Cerratenses – Centro de Excelência do Cerrado, que atua como sede da Aliança Cerrado, hoje uma rede de 60 instituições de vários setores que trabalham juntas pela conservação, recuperação e uso sustentável do cerrado.

 

 

Que história vamos contar?

 

 

Escolhi começar com essa história por três motivos.

 

O primeiro é que meus dois amigos representam os dois públicos principais a quem ofereço esta obra: uma pessoa que procura referências para começar a agir na política a serviço do bem comum; e outra que já participa do jogo da política, mas não quer mais se curvar às regras que estão dadas e procura novas referências sobre como pensar e agir para transformá-lo.

 

O segundo motivo é que essa história resume alguns dos argumentos centrais deste livro. Ela ilustra o poder que temos para realizar sonhos e propósitos conjuntos; afirma a importância de criarmos sinergias entre quem atua nos centros e nas bordas do sistema político; demonstra como os vínculos de confiança e cooperação são a base a partir da qual podemos criar a nossa realidade; e também sugere que revisitemos o significado desta palavra tão mal utilizada: poder.

 

O terceiro motivo é que ela ilustra o estilo em que foi escrita esta obra, que tem como fio condutor uma narrativa da minha própria história. Contar minha história é a maneira mais efetiva que encontrei para tratar de maneira simples este assunto tão complexo que é a política. Além disso, contar uma história me dá liberdade para compartilhar minha maneira de ver o mundo sem a pretensão de que ela se torne verdade para quem a lê.

 

A história que vou contar é a de como um mergulho radical e profundo na prática do diálogo me levou a descobrir maneiras transformadoras de criar e ocupar espaços vazios na política para manifestar no mundo a realidade que sonhamos. Porém, o motivo de contar esta história não é simplesmente comunicar as minhas próprias experiências, aprendizagens e convicções.

 

O propósito deste trabalho é o de fortalecer um movimento mais amplo de pessoas que, ao longo das gerações, nos mais diversos países, buscam ativar nosso poder de criar uma realidade na qual todos tenham a oportunidade de encontrar a verdadeira felicidade. Minha intenção é que a leitura deste livro possa inspirar quem o lê a reconhecer seu poder de manifestar propósitos e sonhos compartilhados onde estiver.

 

Tenho oferecido a diferentes públicos oficinas em que lhes proporciono uma oportunidade de enxergar a si mesmos e a política de uma perspectiva radicalmente viva de pensar. Em uma dessas oficinas, uma jovem estudante de administração pública, Luiza Jardim, fez esta pergunta: “Quão diferente seria a política se todas e todos nós nos percebermos como seres políticos com propósito?”. É por perguntas como esta que desejo navegar.

 

Assim como Luiza, tenho acompanhado várias pessoas que começaram a imaginar e a manifestar o seu ser político, na prática, em suas próprias circunstâncias. Tenho observado que o caminho mais direto para que possamos aprender a lidar com a dimensão política da vida é compreendendo como a história da política conversa com a nossa história pessoal. Portanto, mais do que um relato de vida ou uma reflexão sobre a política, este ensaio é oferecido como um espelho, uma referência para que o outro também possa revisitar a sua própria história e dela se apropriar como ponto de partida para uma transformação coletiva.

 

Hannah Arendt[i] afirmou que “a História é uma história que tem muitos começos, porém nunca tem um fim”. Este livro trata da possibilidade de encontrarmos novos começos a partir de nós mesmos, em cada circunstância, com os recursos que estiverem ao nosso alcance. Trata de como a vida pode ser vista como uma história sem fim, que possui infinitos pontos de partida, ou como uma grande obra de arte, da qual somos todos cocriadores. Portanto, o que é realmente importante não é a história aqui contada, mas sim a maneira como quem a lê interpreta a si mesmo(a) como protagonista de sua própria jornada.

 

Entrando na dança

 

Para auxiliar cada leitor(a) nessa jornada, são oferecidos 20 exercícios práticos e reflexivos, para que o leitor possa expandir a percepção de si mesmo em sua relação com o mundo e com a política. Cada exercício pode ser realizado individualmente e/ou em conjunto com outras pessoas que também estejam interessadas em desvendar ou reinventar seu ser político.

 

Se você sente que tem motivação para esse mergulho, meu convite é que, como primeiro passo, você crie um espaço vazio e se permita entrar, verdadeiramente, em contato com o ser político que habita em você. E isso significaria oferecer a si mesmo duas qualidades de vazio: a do tempo e a do espaço.

 

A qualidade do tempo diz respeito às pausas necessárias para que os exercícios sejam feitos com presença, ou seja, que você busque realizá-los sem pressa, sem a sensação de que está fazendo algo para “entregar” a alguém que não seja você mesmo. Permita-se ter tempo para nutrir algo que ainda pode ser desconhecido.

 

A qualidade do espaço significa reservar um lugar físico para registrar suas ideias. O ideal é que você reserve um caderno de anotações exclusivamente para os exercícios e outras ideias que possam lhe ocorrer durante a leitura do livro. As páginas em branco serão um lugar para que o ser político que habita em você possa ser olhado, escutado, nutrido, transformado – e reinventado.

 

Não importa quais são os recursos materiais, relacionais, cognitivos e de tempo que estejam ao seu alcance. Não importa se você gostaria de atuar ou se já atua por dentro ou por fora das estruturas tradicionais da política. O que importa é que você tenha curiosidade para conhecer outras maneiras de ver o mundo e disponibilidade para expandir a percepção sobre si mesma(o) na relação com seus contextos de vida. Você tem abertura para entrar em contato com algo desconhecido?

 

Então vamos considerar que a política seja uma das maneiras que você tem para interagir com o mundo, e imagine que essa interação pode acontecer como uma dança. Sabemos que dançar não se aprende em livros: dançar se aprende dançando, assim como viver se aprende vivendo. Na dança (e na vida) é mais importante a liberdade de expressão do que a técnica. Pois cada um de nós é único, e o que confere sentido à experiência da dança é precisamente expressarmos nosso jeito mais autêntico de ser. Por isso é que o bom professor nos ajuda a aceitar e até mesmo a valorizar nossos passos errantes, para aos poucos incorporar as regras básicas de cada ritmo e estilo musical.

 

Dentre os muitos estilos de dança, o importante é que você possa encontrar aqueles de que você gosta e revelar sua maneira mais autêntica de se expressar. Seja qual for a nossa preferência, o bom professor é aquele que, ao mesmo tempo que nos possibilita compreender os passos essenciais do ritmo, nos incentiva a encontrar nosso próprio jeito de dançar.

 

Imagine então que você está aprendendo uma dança cujo parceiro é simplesmente… o mundo. Sim, todas as experiências com a realidade em que você está imerso, tal como ela se apresenta, este é o seu mundo, seu parceiro de dança. A política é como se fosse uma oportunidade de dançar com o mundo: quanto mais plenamente você entrar nessa dança, mais irá se “conectar” com o que há de melhor em ambos.

[i] HAYDEN, Patrick. Hannah Arendt: key concepts. Bristol, USA: Acumen, 2014.

 

veja também o sumário, alguns trechosexercícios

 

Adquira já o seu exemplar!

voltar à página inicial